Esse amor profundo por Jesus nos faz ir ao encontro do outro na situação em que este se encontra. O arquétipo de seguimento de Jesus para as Pobres de Jesus Cristo é a experiência que os apóstolos viveram do momento em que foram chamados pelo Mestre até o momento do martírio.
Essa “apostolicidade” presente em nosso Carisma implica em um comportamento: nos faz ir ao encontro do outro na situação em que este se encontra; simultaneamente nos ensina que o modo de vida dos apóstolos é o modelo de vida a ser seguido: homens que gastaram sua vida para que o Reino de Deus fosse pregado e vivido cuja ocupação e preocupação principal era este Reino.
“A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos.” (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 24)
“Para os pobres queremos ser bons samaritanos, que amam a toda hora e em qualquer lugar ou situação; que fazem o bem sem esperar nada em troca. Para eles doamos o melhor de nossas forças, de nossa criatividade e de nossa própria pobreza.” (NF 51)
Na figura do bom samaritano temos o nosso modelo bíblico de serviço aos pobres. Por razões históricas e políticas, os samaritanos eram vistos pelos judeus como estrangeiros “heréticos e cismáticos, detestados até mais que os judeus”.
O samaritano da parábola do Evangelho de São Lucas (Lc 10, 29-37) era alguém que sabia que não iria receber nada em troca daquele homem que foi assaltado o qual decidira ajudar. O bom samaritano não era movido por interesses pessoais. Pelo contrário, sem esperar retorno, ao ver aquele moribundo “moveu-se de compaixão” (Lc 10,33) e depois de ser tocado interiormente pela dor e sofrimento do seu próximo, saiu de si e tomou uma atitude, “usou de misericórdia para com ele”
Somos servidores dos pobres. Decidimos ser de Jesus todo para amá-lo acima de todas as coisas. Mas Ele disse que tudo o que fizermos aos pequeninos é a Ele mesmo que estaremos fazendo (cf. Mt 25,40). Portanto, decidimos ser de Jesus todo para servi-lo nos pequeninos.
Nos seus discursos e documentos, o papa Francisco insistentemente pregou contra “a cultura da indiferença”, certa ocasião, exortou: “rezemos ao Senhor para que cure a humanidade, começando por nós: que o meu coração sare desta doença, ou seja, a cultura da indiferença”. A nossa espiritualidade samaritana nos coloca decisivamente na contra mão dessa cultura mundana. Não podemos permitir que essa doença nos contamine, pois queremos, por amor a Jesus, ser no seio da Santa Mãe Igreja, “os samaritanos daqueles que vivem à margem do caminho”
Francisclariana
“Francisco e Clara nos apresentam a fraternidade e a pobreza como uma via segura pela qual podemos seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo.” (NF 127)
No Poverello de Assis, São Francisco, assim como na Pequena Florzinha do seu jardim, Santa Clara, encontramos o exemplo de que é possível viver o Evangelho sine glossa, isto é, palavra por palavra, conforme está escrito. Toda a vida de Francisco foi expressão do Evangelho e no ideal franciscano encontramos aquelas duas colunas que desde a nossa fundação tem sido sustentáculo para a nossa pequena Obra: a pobreza e a fraternidade.
O filho de Pedro Bernardone, que sempre teve aspirações ambiciosas, decide de forma dramática abraçar a esposa pobreza: “Despiu-se imediatamente, jogou ao chão suas roupas e as devolveu ao pai. Não guardou nenhuma peça de roupa, ficou completamente nu diante de todos” (Legenda Maior 6,15). “Francisco tratou de desprezar a própria vida... para encontrar como um pobre a paz” (1Cel 15). “Num mundo tão apegado ao transitório e ao temporal, nossa pobreza deve refulgir como um autêntico e libertador testemunho de que o amor e a salvação que vem de Deus são suficientemente reais para dar sentido à vida humana” (NF 52).
“O Senhor me deu irmãos”. Com essa expressão, Francisco resume o que significou para ele a chegada dos primeiros irmãos. Os dois primeiros chegaram no dia 16 de abril de 1208, dois anos após sua conversão. A Legenda dos Três Companheiros nos comenta que nesse dia Francisco “se alegrou profundamente e deu graças a Deus” (TC 27). Com seus irmãos Francisco pôde viver a mesma experiência que Jesus viveu com os seus discípulos. Com eles Francisco riu, chorou, rezou, trabalhou; também tiveram os dias difíceis, sobretudo quando a Obra começou a crescer. Francisco muitas vezes foi incompreendido pelos irmãos, mas jamais abandonou a sua Fraternidade.
Nesse espírito franciscano radical, pobre e fraterno, entendemos o nascimento da vocação de Santa Clara de Assis: “Quando ouvi falar do então famoso Francisco que, como Homem Novo, renovava com novas virtudes o Caminho da perfeição, tão apagado no mundo, quis logo vê-lo e ouvi-lo” (Legenda de Santa Clara 5). Santa Clara deixou ao nosso Instituto, especialmente à nós irmãs, o seu legado espiritual: a esponsalidade, a virtude da honestidade e o desembelezamento.
Esponsalidade: pela consagração religiosa, os consagrados tornam-se almas esponsais. Isso significa que nossa alma foi desposada e possui um único dono: Jesus.
Honestidade: Para Clara, a honestidade é uma das virtudes principais para o seguimento do Senhor: “No Senhor Jesus Cristo, aconselho e admoesto a todas as minhas irmãs, presentes e futuras, que sempre se empenhem em seguir o caminho da santa simplicidade da humildade, da pobreza e também uma vida honesta e santa, como aprendemos de Cristo e de nosso bem-aventurado Pai Francisco desde o início de nossa conversão.” (Testamento de Clara 56-57)
Desembelezamento: “Renunciando a todos os adornos, consentiu que lhe cortassem os cabelos e vestiu os trajes da santa penitência e despojou Jesus Cristo como humilde serva” (Legenda de Santa Clara 8). Santa Clara nos ensina o remédio que o combate ao mal da vaidade que a muitos escraviza: simplicidade e despojamento.