ARTIGO: Lectio Divina - um encontro que faz o coração arder
“Não ardia em nós o coração?” (Lc 24,32). Neste mês da Biblia, confira o artigo da Ir. Luna do Deus Escondido sobre a Lectio Divina e o encontro com Cristo na Palavra.
Notícias do Instituto
16.09.2026 - 09:01:00 | 4 minutos de leitura

Jesus diz à multidão: “Quem é que traz uma lâmpada para colocá-la debaixo de um caixote, ou debaixo da cama? Ao contrário, não a põe num candeeiro?” (Cf. Mt 4,21s), e, dessa forma, provoca uma reflexão sobre a influência que as coisas exercem sobre nós. O Senhor, nessa passagem, está nos dizendo que a exposição à Sua Palavra muda os corações, assim como o fogo muda o ambiente.
Entenda: o texto bíblico não é a luz; ele traz uma lâmpada, que é a Presença Viva de Deus, e Ele é como o fogo, cujas propriedades são iluminar, aquecer e fazer arder. Assim, só ler o texto da Sagrada Escritura é como “trazer uma lâmpada para colocá-la debaixo de um caixote”; por outro lado, a experiência com Cristo, através de Sua Palavra, é a única força capaz de iluminar, aquecer e fazer arder o interior do homem, alimentando e orientando seu existir.
Veja os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35): antes de reencontrarem Jesus, de “carne e osso”, tal como Sua Palavra, seus corações estavam frios e na escuridão, desorientados e débeis. Mas eles O encontraram; seus corações arderam, ficou tudo claro e o frio se foi; suas existências recobraram sentido e suas forças renasceram: “Não ardia em nós o coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”
Justamente isso é a lectio divina. Explica o Papa Bento XVI: «A lectio divina é verdadeiramente capaz de abrir ao fiel não só o tesouro da Palavra de Deus, mas também de criar o encontro com Cristo, Palavra divina e vivente... A leitura da Palavra de Deus nos ajuda no caminho de penitência e conversão, nos permite aprofundar no sentido da pertença eclesial e nos sustenta numa maior familiaridade com Deus» (Verbum Domini, nº 87).
Na história da Igreja, o primeiro que fala da leitura da Palavra de Deus usando o termo lectio divina é Orígenes. Posteriormente, em torno da Palavra, ouvida, meditada e rezada, surgiu e se organizou o monaquismo do deserto. As regras monásticas de Pacômio, Agostinho, Basílio e Bento, e as sucessivas reformas e transformações da vida religiosa sempre retornavam à lectio divina. Orígenes diz que, para ler a Bíblia, é necessário um esforço de atenção e de assiduidade: “Cada dia de novo, como Rebeca, temos de voltar à fonte da Escritura! E o que não se consegue com o próprio esforço deve ser pedido na oração, pois é absolutamente necessário rezar para poder compreender as coisas divinas”.
Deste modo, chegaremos a experimentar o que esperamos e meditamos. Por volta do ano 1150, um monge cartuxo chamado Guigo II escreveu uma carta a seu irmão Gervásio, na qual sistematizou a lectio divina em quatro degraus, e a visão de Santo Tomás de Aquino enriquece cada um deles com a clareza da razão:

Se a experiência com Cristo muda o frio em quente, é de se questionar por que os contatos que temos com Sua Palavra ainda não nos fizeram arder o coração. Essa passagem pode responder à questão: “O que leia que entenda” (Mc 13,14). Em outras palavras, o efeito pleno não está na leitura do texto, mas no contato com Ele; o que ilumina não é a letra, mas a compreensão da mensagem, que só vem do encontro com A Pessoa. Diferente de outros textos, a Sagrada Escritura não está para ser só lida, mas entendida, experimentada, mastigada; está para nos lavar, está para nos aquecer, nos queimar, para que nos apaixonemos por suas entrelinhas. Ela É. Está viva, é uma Pessoa, que nos alimenta com sua Carne e Seu Sangue, seja na Sua Palavra, seja na Hóstia consagrada.
Que esse estudo nos ajude a entender, por fim, por que, por vezes, escutamos a Palavra de Deus, mas nosso coração não queima e nossa vida não muda, e nos proponhamos a ter um tempo específico, uma disposição da mente, uma atenção dos sentidos, uma fome na vontade para encontrar-nos com Ele. Além disso, a boa leitura é aquela iluminada pela tradição viva da Igreja de Jesus Cristo. Já nos alertava a Santa reformadora do Carmelo:

Aprendamos, pois, a ouvir a Palavra de Deus como uma mensagem dirigida especialmente a nós: envolvamo-nos com ela, alimentemo-nos dela, façamos dela o sangue que corre em nossas veias e alimenta a nossa pequenina inteligência, a lâmpada que ilumina, aquece e faz arder nosso ser inteiro.

Jesus diz à multidão: “Quem é que traz uma lâmpada para colocá-la debaixo de um caixote, ou debaixo da cama? Ao contrário, não a põe num candeeiro?” (Cf. Mt 4,21s), e, dessa forma, provoca uma reflexão sobre a influência que as coisas exercem sobre nós. O Senhor, nessa passagem, está nos dizendo que a exposição à Sua Palavra muda os corações, assim como o fogo muda o ambiente.
Entenda: o texto bíblico não é a luz; ele traz uma lâmpada, que é a Presença Viva de Deus, e Ele é como o fogo, cujas propriedades são iluminar, aquecer e fazer arder. Assim, só ler o texto da Sagrada Escritura é como “trazer uma lâmpada para colocá-la debaixo de um caixote”; por outro lado, a experiência com Cristo, através de Sua Palavra, é a única força capaz de iluminar, aquecer e fazer arder o interior do homem, alimentando e orientando seu existir.

Veja os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35): antes de reencontrarem Jesus, de “carne e osso”, tal como Sua Palavra, seus corações estavam frios e na escuridão, desorientados e débeis. Mas eles O encontraram; seus corações arderam, ficou tudo claro e o frio se foi; suas existências recobraram sentido e suas forças renasceram: “Não ardia em nós o coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”
Justamente isso é a lectio divina. Explica o Papa Bento XVI: «A lectio divina é verdadeiramente capaz de abrir ao fiel não só o tesouro da Palavra de Deus, mas também de criar o encontro com Cristo, Palavra divina e vivente... A leitura da Palavra de Deus nos ajuda no caminho de penitência e conversão, nos permite aprofundar no sentido da pertença eclesial e nos sustenta numa maior familiaridade com Deus» (Verbum Domini, nº 87).
Na história da Igreja, o primeiro que fala da leitura da Palavra de Deus usando o termo lectio divina é Orígenes. Posteriormente, em torno da Palavra, ouvida, meditada e rezada, surgiu e se organizou o monaquismo do deserto. As regras monásticas de Pacômio, Agostinho, Basílio e Bento, e as sucessivas reformas e transformações da vida religiosa sempre retornavam à lectio divina. Orígenes diz que, para ler a Bíblia, é necessário um esforço de atenção e de assiduidade: “Cada dia de novo, como Rebeca, temos de voltar à fonte da Escritura! E o que não se consegue com o próprio esforço deve ser pedido na oração, pois é absolutamente necessário rezar para poder compreender as coisas divinas”.
Deste modo, chegaremos a experimentar o que esperamos e meditamos. Por volta do ano 1150, um monge cartuxo chamado Guigo II escreveu uma carta a seu irmão Gervásio, na qual sistematizou a lectio divina em quatro degraus, e a visão de Santo Tomás de Aquino enriquece cada um deles com a clareza da razão:

Se a experiência com Cristo muda o frio em quente, é de se questionar por que os contatos que temos com Sua Palavra ainda não nos fizeram arder o coração. Essa passagem pode responder à questão: “O que leia que entenda” (Mc 13,14). Em outras palavras, o efeito pleno não está na leitura do texto, mas no contato com Ele; o que ilumina não é a letra, mas a compreensão da mensagem, que só vem do encontro com A Pessoa. Diferente de outros textos, a Sagrada Escritura não está para ser só lida, mas entendida, experimentada, mastigada; está para nos lavar, está para nos aquecer, nos queimar, para que nos apaixonemos por suas entrelinhas. Ela É. Está viva, é uma Pessoa, que nos alimenta com sua Carne e Seu Sangue, seja na Sua Palavra, seja na Hóstia consagrada.
Que esse estudo nos ajude a entender, por fim, por que, por vezes, escutamos a Palavra de Deus, mas nosso coração não queima e nossa vida não muda, e nos proponhamos a ter um tempo específico, uma disposição da mente, uma atenção dos sentidos, uma fome na vontade para encontrar-nos com Ele. Além disso, a boa leitura é aquela iluminada pela tradição viva da Igreja de Jesus Cristo. Já nos alertava a Santa reformadora do Carmelo:

Aprendamos, pois, a ouvir a Palavra de Deus como uma mensagem dirigida especialmente a nós: envolvamo-nos com ela, alimentemo-nos dela, façamos dela o sangue que corre em nossas veias e alimenta a nossa pequenina inteligência, a lâmpada que ilumina, aquece e faz arder nosso ser inteiro.

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